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Clichês e mentiras sobre os Campeonatos Estaduais

14/02/2017 às 04:54


Onde estaria o interesse do interior pelos “gigantes da capital”?


Clichês e mentiras sobre os Campeonatos Estaduais

Um dos principais argumentos de quem defende a continuidade dos Campeonatos Estaduais: “é preciso valorizar o futebol do interior!”; “as cidades pequenas hão de ser contempladas com o privilégio de receber partidas dos grandes da capital!”; “quando determinados municípios pequenos, pobres, longínquos teriam a honra de ver de pertinho um Thiago Neves, um Fred, os dois ‘Robinhos’?”. Esse tipo de fala pressupõe que nas cidades do interior de Minas, por exemplo, os habitantes estariam sedentos por cotejos de Cruzeiro e Atlético, que os duelos envolvendo estes gigantes e os representantes locais seriam grandes acontecimentos; que o interesse pelo evento, em si, seria no mínimo considerável, digno de nota. Mas o que pensar quando notamos que os estádios do interior, mesmo nos jogos em que Galo e Raposa estão sendo recebidos, permanecem vazios? Onde estaria o interesse, o alvoroço, o “parar a cidade” então decantado?

Tenho convicção – e já apresentei os motivos para isso em colunas anteriores – de que os altos valores dos ingressos cobrados neste processo injusto e estúpido de “elitização do futebol” são, em vários aspectos, o principal obstáculo para o torcedor comparecer às “Novas Arenas Padrão FIFA”, e consequentemente, razão central para bilheterias pífias, para as médias de público irrisórias de quase todos os grandes tupiniquins. Só que este tipo de análise, vale reforçar, é voltada apenas à realidade das equipes de maior tradição e, via de regra, da capital, salvo raras exceções. Óbvio que no interior os altos preços dos ingressos também são/seriam empecilhos. Talvez até maiores – poder aquisitivo médio inferior... O que digo aqui, portanto, não é que em boa medida os mesmos argumentos não se aplicariam à realidade dos municípios pequenos, e sim que, no debate público acerca das razões para as bilheterias diminutas no chamado “país do futebol”, não é costume incluir o interior. Que o futebol dos pequenos, por algumas peculiaridades, haveria de estar numa apreciação à parte. E aqui, especificamente, o ponto central seria: sim, os altos preços também afastam no interior; mas o que dizer dos públicos ridículos em jogos dos grandes nestes locais mesmo quando a entrada não é cara? Onde estaria o interesse gigantesco pelos bichos-papões da capital? Precisamos falar sobre isso. Rever certos discursos clichês. Afinal, nos últimos anos, em vários jogos envolvendo Atlético e Cruzeiro em cidades menores, mesmo quando o ingresso foi barato, ou pelo menos “aceitável”, “ok”, o público não foi minimamente considerável.

No frigir dos ovos, em meio a todas estas reflexões há um ponto que já desenvolvi em diferentes artigos – em outros contextos, entrelaçando-o a outros temas centrais –, de cunho sociológico e filosófico, mais complexo, e de difícil aceitação para as pessoas – por desmistificar “verdades” (mentirosas) altamente enraizadas no nosso país –, que não pode ficar de fora das apreciações arroladas e está altamente vinculado a qualquer discussão a respeito de baixos públicos no Brasil: o torcedor tupiniquim médio que aparenta, ou de fato é fanático por futebol, não o consome (em sentido amplo) da maneira que este suposto (ou real) interesse nos faria presumir. E, numa acepção ainda mais profunda, e que transcende totalmente o esporte bretão: o estereótipo do brasileiro como “povo feliz”, extrovertido, que gosta de sair, de rua, de entretenimento de maneira geral, precisa ser bastante relativizado. Há algo de pacato no nosso povo, de certo tipo de acomodação, preguiça, desinteresse, torpor, que se relaciona, sim, à dificuldade de encher eventos de toda ordem – não falo aqui só de esporte. Mais sobre isso em breve.

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