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Sujo falando do mal lavado

10/01/2017 às 04:15


Antes de chamarem certos técnicos de ultrapassados, muitos jornalistas deveriam fazer uma autocrítica...


Sujo falando do mal lavado

Muito se fala de técnicos ultrapassados no nosso país. Em vários aspectos, essas figuras se apoiam, ganham sobrevida em função de um ambiente, uma espécie de cultura anti-intelectual ainda forte no Brasil. Curiosidade: muitos comunicadores que apontam o dedo para condenar a desatualização de um Joel Santana, um Vanderlei Luxemburgo, são os mesmos que reputam como “frescura” diversas tentativas inteligentes, corretas de aprofundamento na abordagem do futebol. Nesta esteira, para a aceleração, a concretização de certos progressos no meio do esporte bretão tupiniquim, a evolução da imprensa e do público pode ter papel importantíssimo.

Escrevi recentemente sobre a dificuldade que muitos jornalistas possuem de entender minimamente os sistemas táticos utilizados pelas equipes – algo notável, inclusive, na forma com que divulgam as escalações. Quando falava com Tinga, novo gerente de futebol do Cruzeiro e grandíssima figura, na semana passada, sobre as estratégias de Antonio Conte no Chelsea, me veio à mente uma nova questão: além de aprenderem a detectar, a se informar a respeito dos esquemas, estes arautos da mídia precisam criar o hábito de transmitir ao espectador o esqueleto, o desenho das equipes com, e sem a bola. Afinal, dentro do que se faz hoje na modalidade mais popular do planeta, levando-se em conta o comportamento de grande parte dos conjuntos, a diferença de posicionamento do todo nas duas fases básicas de cada confronto – ofensiva e defensiva – vem se mostrando tão ampla, definida, e cada um desses estágios tão claramente delineados, programados, que se torna impossível se referir a só um sistema para cada esquadrão.

O próprio Chelsea atual é exemplo cristalino desta tendência. Decanta-se bastante que o time joga no 3-4-3. Com a posse, de fato, os blues têm atuado assim – dá para falar também em 3-4-2-1. Contudo, quando defendem, fica tão escancarada a mudança da estrutura para um 5-4-1 que, para a compreensão devida da estratégia pensada, para defini-la, não é nada recomendável se ater a só um esquema.

Em texto publicado aqui há duas semanas analisava como algumas ideias com quê de vanguardistas, elogiadas na Europa, mas populares no Velho Continente a ponto de estarem em vias de se tornarem bastante comuns, teriam dificuldades de penetração no Brasil – culpa do conservadorismo que se atrela ao ranço anti-intelectual citado. Também nesta seara o líder da Premier League serve como caso concreto/referência de manual para elucidarmos o argumento. No 3-4-3 que varia para o 5-4-1 nos moldes explicitados, Moses é o ala pela direita. O jogador sempre foi conhecido como peça ofensiva – um meia-atacante agudo, incisivo, de muita velocidade, para fazer o lado do campo. Pois então... Em comunhão com a multiplicidade de funções que convém ao futebol moderno, se com a posse Moses ataca bastante, sem ela o nigeriano ocupa simplesmente a linha mais defensiva da equipe. Isso mesmo que você leu: o Chelsea, no momento defensivo tem, fechando o flanco direito, ao lado dos três zagueiros e do outro ala, um meia-atacante de origem – não como um auxiliar de lateral; neste momento, ele é o próprio, o principal e mais recuado responsável pela marcação por aquele canto... Se um técnico faz algo assim em Minas seria chamado de quê? Professor Pardal, claro...

E o que dizer de Azpilicueta, sempre lateral – até com boa vocação ofensiva –, transformado por Conte em zagueiro – algo similar fizera Guardiola no Bayern com Alaba? Mano Menezes experimentou artifício deste tipo contra o Grêmio, na semifinal da Copa do Brasil – jogo de ida, Mineirão, só no segundo tempo, com Edimar. O time ficou uma bagunça. Mas não pelo fato de a ideia, em si, ser “invencionismo”, “loucura”; o problema esteve no comportamento atabalhoado do lateral celeste – que se mandava para o ataque exageradamente esquecendo que tinha virado zagueiro. E na época, noves fora a maioria que nem percebeu a tentativa estratégica ainda inovadora no Brasil, proporcionalmente, entre os que algo declararam, muitos criticaram Mano pelo motivo errado...

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