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Apresentação
Eduardo-costa
Coluna do Eduardo Costa
03/11, 16:42 h / Atualizado em 03/11, 16:43 h

A tragédia inesquecível

A tragédia inesquecível

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Por que algumas ocorrências são inesquecíveis, num mundo em que os fatos surgem aos borbotões e disputam espaço de destaque ainda que por um dia? Ou porque são catástrofes, no número de vítimas ou dano à natureza, ou pelo palco – Times Square, Arco do Triunfo, Copacabana –, ou pela capacidade de mudar a história, caso do suicídio de Getúlio Vargas, por exemplo.

O rompimento da barragem de Fundão é um pouco de tudo. O número de mortos e desabrigados é assustador, o dano ao meio ambiente devastador, o palco é misto da simplicidade de Bento Rodrigues com a importância de Mariana para o Minas Gerais e, claro, aquela lama terá retumbância na história, pois não é possível que as coisas continuem como estiveram nos últimos 400 anos em nosso estado. Aqueles rejeitos que correram por riachos, córregos, represas, avançaram por 600 quilômetros de Rio Doce e foram parar no mar são apenas um cisco diante da sujeira que por séculos nós empurramos para debaixo do tapete.

Repetimos à exaustão: o minério é uma riqueza, sua exploração gera divisas e empregos, o mundo precisa dele e Minas deve se orgulhar de tê-lo em abundância. Do jeito que é explorado, com os impostos ridículos que paga, com a destruição desmedida de matas e nascentes, com o avanço sobre a vida nas cidades, com as mazelas sociais que provoca, o minério se tornou símbolo da arrogância e do autoritarismo. Arrogância das mineradoras, que entregam migalhas em ação social como se estivessem fazendo favor, bancam eventos de autobajulação, fazem pose de sustentabilidade e dão trocados para campanhas desonestas de políticos cada vez mais comprometidos. Autoritarismo porque, pelo suborno, corrompem governos que fingem fiscalizar, fingem cobrar, fingem existir.

O que já foi dito pela Polícia Federal, o que está nos autos do Ministério Público e o que a Itatiaia vem relatando esta semana, em trabalho maravilhoso de toda a equipe, tendo à frente as repórteres Mônica Miranda e Edilene Lopes, autoriza-nos a dizer que essa tragédia tem as digitais de grandes nomes da política mineira, uns decadentes, outros emergentes, membros do seleto clube de autoridades que provocam náuseas. O alto índice de abstenção, os votos nulos e brancos de domingo último (30) em todo o país são a concretude da desilusão.

Essa tragédia não pode ser esquecida... Pelos mortos, pelos parentes, pelos vizinhos, por todos os que perderam o chão, o terreiro, as galinhas, os pés de frutas, a esperança; pelos que, longe, ficaram sem o peixe, sem água para beber; por aqueles que ouvem o barulho do rio, sentem a presença do rio, mas sabem que ele não está lá. Não, nenhum vereador, deputado, prefeito ou governador vai fazer discurso hoje, amanhã, semana que vem, simplesmente porque não têm o que dizer.

Mesmo a Samarco, convidada a falar, disse que, por enquanto, não. A gente fica frustrado, queria exercer o contraditório, mas, pensando bem, falar o quê? Nem pedido de desculpas cabe agora. Só dor. Um ano de dor. Antes, era dor da inocência, desinformação. Na tarde de 5 de novembro de 2015 foi a dor do desespero, da morte que podia ser evitada, e, hoje, é a dor da indiferença, do preconceito, da falta de perspectivas, do abandono.

Não, nós não podemos esquecer nunca!

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