Eduardo Costa

Coluna do Eduardo Costa

Notícias de Esporte

Em respeito à audiência

09/03/2017 às 01:23

Não costumo comentar a repercussão do que falo, no rádio ou na TV, ou o que escrevo. Afinal, não se comenta comentário. Além disso, algumas falas que se seguem a publicações em mídias sociais não merecem resposta. Outras revelam desconhecimento de seus autores da complexidade do tema e, como o comunicador – por falta de tempo ou talento – não foi capaz de explicitar à altura, não pode reclamar. Mas, após a veiculação da entrevista que fiz com o goleiro Bruno na Record e na Itatiaia, uma senhora se disse decepcionada comigo, por ter feito entrevista como “uma conversa entre amigos” e não levar em conta a possibilidade de que alguém matasse uma de minhas filhas. 

Preciso responder; não para tentar mudar a opinião dessa senhora, mas, para deixar claro o respeito que tenho por leitores, telespectadores e ouvintes que, afinal, são a razão do meu trabalho e a fonte do meu salário. Preciso dizer que, de fato, não sou amigo do Bruno e o vi pela primeira vez na tarde de domingo, quando fizemos a entrevista. Não foi entrevista paga, como muitas que envolvem personagens importantes e garantem bons índices de audiência. Também não pedi. Acredite, não pedi. O advogado de Bruno, Lúcio Adolfo, me respeita pelo meu trabalho e ficou especialmente grato quando, apesar de quase sem voz, fui a Mariana palestrar em evento com advogados criminais, preparado por ele. Na sexta, quando deixou a APAC de Santa Luzia com Bruno, ligou para dizer que eu merecia uma exclusiva com o goleiro e eu sugeri que todos descansassem naquela noite e a gente se falasse no sábado ou domingo. Outro colega de imprensa foi para a casa do defensor na hora e conseguiu a chamada “primeira mão”. Não o censuro. Quem gosta da profissão deve agir assim mesmo. Então, como ele é da Globo, sofri pressão da Record para empatar o jogo na noite de domingo. Conseguimos, eu e muita gente que trabalhou junto nos bastidores. Mas, tão logo chegou perto de mim para a conversa, Bruno falou que só concordara porque me considera, gosta do meio jeito de narrar e comentar e pela defesa permanente que faço da APAC, modelo prisional diferenciado.

Voltemos à entrevista. Não fiz favor ao Bruno nem ele a mim. Na conversa, não me interessava o crime... Muito já se disse a respeito, houve julgamento, condenação em primeira instância... Não me movia o desejo de fazer a melhor entrevista, já passei dessa fase na profissão. Não via o Bruno como o criminoso, não era o jurado. Queria aproveitar a oportunidade para mergulhar na alma desse ser humano, retrato da maioria esmagadora do povo brasileiro e que viveu as duas extremidades da nossa sociedade – da miséria, falta de colo e de rumo à fama, badalação e bajulação. Assim como Bruno tem uma trajetória cheia de fracassos, vitórias e emoções, eu, o entrevistador, também... A propósito, ele cresceu na periferia de Neves e, se andasse um pouquinho, passasse por Tapera e Vera Cruz de Minas, chegaria a Inácia de Carvalho, onde me criei até os 9 anos. Queria conferir se amigos falsos, fama sem consciência e dinheiro sem preparo foram a causa de seu infortúnio.

Bruno é resultado de sua trajetória. Seguiu pelos campos da vida. Eu também. Cheguei ao Jornalismo, depois estudei Valores Humanos, na Fundação João Pinheiro; Sustentabilidade e Responsabilidade Social na Fundação Dom Cabral e Ciências Sociais na PUC Minas. Tinha de aproveitar os grandes mestres, as primorosas leituras... Deus sabe que não me move o desejo de ostentação nessas citações, mas, apenas a necessidade de contextualizar a entrevista com Bruno. Para mim, ele é mais fruto da falta de preparo do que de um bandido sem limites. Estou seguro de que já pagou pelo que fez - se fez (provavelmente por omissão e não livre arbítrio), não tenho a menor dúvida de que sete anos de reclusão é muita coisa, mas, não sou eu quem dirá se é o bastante. Não estou falando de bandido! Falo de criminoso eventual, alguém que fez uma m... Por cabeça quente, falta de preparo ou influências externas, o que, eu, você, qualquer pessoa pode fazer, em casa, no escritório, no trânsito, concordando com uma sugestão indecente de forma impensada.

Não estou dizendo que ele é inocente, nem ficando ao lado dele.

Estou dizendo que, se, direta ou indiretamente, contribuiu para a morte de Elisa (e nós, sociedade, por nosso corpo de jurados, dissemos sim), está pagando e deve ser tratado, por policial, repórter ou qualquer pessoa como alguém que precisa de compreensão, não pedradas. Sempre fui assim com todos os acusados que entrevistei nos últimos 40 anos. Ou, afinal, o espírito da pena não é a pessoa se arrepender, penitenciar e mudar de vida, não fazer mais? Até a arrogância ele já perdeu. Diz que, quando lhe serviram comida em uma pá no presídio de Francisco Sá percebeu que não era ninguém... Não somos!    

Bruno não está livre da pena. E eu não o estou livrando. Mas, se,  nesse momento devemos voltar nossas baterias para alguém ou alguma instituição nosso alvo deve ser o Tribunal de Justiça de Minas Gerais que, por incompetência, indiferença ou irresponsabilidade, não julgou recursos de um réu preso após quatro anos de sua condenação... É isso que o ministro Marco Aurélio anotou em seu habeas corpus e essa deveria ser a nossa discussão... Que Justiça é essa? Lembrando que o principal recurso diz respeito a uma pergunta que não quer calar: pode uma juíza criminal de Contagem assinar atestado de óbito de uma pessoa que “teria sido” sequestrada no Rio, levada para Esmeraldas, morta e entregue aos cães em Vespasiano, mas, cujo corpo não foi encontrado? 

Minha cara ouvinte, telespectadora e leitora, creia-me: o Bruno está no fundo do poço. E só não se matou no cárcere por causa de dois amores: a avó, que criou dez filhos, ele e mais cinco netos como possível, e Ingrid, a esposa, companheira das trevas. Assim que os recursos forem devidamente julgados, quando a justiça assim decidir, ele e todos os que se arrependeram, todos os que querem mudar de verdade devem ganhar uma nova chance. Deixemos as grades para os irrecuperáveis, reincidentes, frios, calculistas e indubitavelmente perigosos. 

Algumas leituras, de textos como um escrito pelo italiano Cesare Beccaria, mudam a cabeça da gente. Uma frase do livro dele, de 1764:  “Quanto mais bárbaro e odioso o crime, menos provável que tenha acontecido; quanto menor o interesse do acusado em cometê-lo, menor a probabilidade deste o ter feito”. 

Mais: na França, nas décadas anteriores à Revolução Francesa, Jean Calas, um comerciário protestante da cidade de Tolouse, foi acusado de assassinar o filho, que queria se converter ao catolicismo. A sentença foi a pena de morte, e a execução – no suplício da roda, sob tortura – ocorreu em 1762. Voltaire, o grande escritor, filósofo e defensor das liberdades civis, convencido da inocência do condenado, denunciou e, graças à repercussão de seus escritos, em 1765 Jean Calas foi postumamente inocentado. O conjunto de textos de Voltaire ganhou o título de Tratado sobre a Tolerância, e um deles é uma “prece a Deus”, que começa assim:

“Já não é mais aos homens que me dirijo; é a ti, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos: se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidade e imperceptíveis ao resto do Universo ousar pedir-te alguma coisa, a Ti, que já lhes destes tudo, a Ti, cujos decretos são tão imutáveis quanto eternos, digna-Te a olhar com piedade os erros inerentes à nossa natureza; que estes erros não nos tragam calamidades. Tu que absolutamente não nos destes um coração para que    nos odiássemos, nem mãos para que nos matássemos, faze com que nos ajudemos mutuamente a suportar os fardos de uma vida penosa e passageira; que as pequenas diferenças entre as vestes que cobrem nossos débeis corpos, entre todas as nossas linguagens insuficientes, entre todos os nossos costumes ridículos, entre todas as nossas leis imperfeitas, entre todas as nossas opiniões insensatas, entre todas as nossas condições tão desproporcionadas a nossos olhos, porém tão iguais perante os Teus; que todas essas pequenas nuances que distinguem entre si átomos chamados homens não sejam mais motivos de ódio e de perseguição...”   

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