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Apresentação
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Coluna do José Lino Souza Barros
07/01, 12:30 h / Atualizado em 07/01, 12:31 h

Ficar sozinho

Ficar sozinho

da escritora e redatora Cristina Parga

Nas aldeias costeiras da China, por cerca de 2.000 anos, mulheres mergulhavam no fundo do Pacífico quase nuas, com apenas uma máscara e nadadeiras. As águas eram gélidas e as meninas (como sempre, treinadas bem cedo), ficavam minutos debaixo d'água, repetindo o mergulho mais de 50 vezes por dia. (...)

Tortura ou prazer, eu não conseguiria viver sem treinar meus pulmões para aguentarem o máximo que puderem esse momento único, em que a pele é a nossa única fronteira com o azul. Nada se ouve além do murmurejar das águas (ou o bater do nosso coração?) e ficamos livres da gravidade, sociedade e outras amarras, inteiros com nós mesmos. Plenos. (...)

Talvez algumas pessoas tenham uma tolerância maior à solidão. Eu aguento bem. Ou talvez precise. Porque há um ganho em se estar sozinho. Escrever, sonhar acordado, o que for, sem notar se anoiteceu ou já é dia. Pensar ou tentar não pensar, sem interrupções. E viver aquele instante mágico em que estamos imersos em nós e de repente o mundo vem. Traz-nos à tona. (...) É tentador trocar qualquer experiência externa por esse mergulho num submerso mundo de isolamento. Mas há um tempo limite. E condições limitantes também.

Não se mergulha em mar revolto ou quando há tempestade, embora, muitas vezes, as águas ainda pareçam o único refúgio. É preciso cuidado. É preciso lembrar dos que ficaram ali presos, pra sempre; é preciso saber voltar. Quando há alguém que se ama à nossa espera aqui do lado de fora, é mais fácil vir à tona. Com pérolas e pedras brilhantes, os olhos cheios de histórias para partilhar. Mas repito. É preciso saber voltar.

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