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Documentário 'Amigo Secreto' reflete sobre papel da imprensa na democracia

Novo filme da diretora Maria Augusta Ramos tem como foco os desdobramentos da Operação Lava Jato no Brasil e no mundo 

Mulheres jornalistas assumem o protagonismo no documentário 'Amigo Secreto'

O documentário “Amigo Secreto”, de Maria Augusta Ramos, tem muitas perguntas a responder. Quais eram os interesses da Lava Jato? Por que a operação perseguiu Lula? Que impactos gerou sobre as empresas investigadas? E, ainda, uma questão que se coloca como preponderante. A diretora analisa como a imprensa se comportou para, consequentemente, refletir sobre o seu papel na democracia.

Por conta disso, além das imagens de arquivo com os principais envolvidos nesse momento histórico, lança mão de outro grupo de protagonistas, formado quase que exclusivamente por mulheres, uma escolha ideológica que reforça o seu ponto de vista: elas são jornalistas. O embate contra um ambiente patriarcal é implícito, porém nítido.

Há um certo incômodo com a busca de uma pretensa naturalidade em cenas nas quais as pessoas sabem, claramente, que estão sendo filmadas e, logo, atuam. Mas, de longe, as mulheres do filme são as que surgem menos armadas. Outra escolha da diretora é não empapuçar as imagens com narrações, o que confere um tom de sobriedade quase jornalístico ao documentário, na linha dos pioneiros no gênero, em que a montagem se impõe como grande trunfo.

O que não a impede de tomar partido, eleger um lado da história ao qual quer se filiar. A posição de Maria Augusta Ramos é clara: ela se coloca como crítica da Lava Jato, tanto que não há um depoente a elogiar a operação que teria deflagrado o maior esquema de corrupção da história do Brasil e chegou mesmo a se comparar a Jesus, dada a sua unanimidade, antes de cair em desgraça.

É esse momento de derrocada que mais interessa à cineasta. A partir da revelação de conversas privadas entre membros do Ministério Público e do ex-juiz Sergio Moro, descobriu-se um modus operandi tão ou mais corrupto do que aquele supostamente investigado. A declaração de um delator é precisa nesse sentido: quem não implicasse Lula, permanecia preso; enquanto, quando um colega mencionou o deputado Aécio Neves, teve seu depoimento dispensado.

Logo, vai-se percebendo o caráter político da operação autoproclamada de varredura da corrupção, com um tom messiânico que atinge o ápice no famigerado PowerPoint do procurador Deltan Dallagnol que colocava Lula como o chefe máximo da suposta quadrilha que assaltou os cofres da Petrobras. O documentário faz isto colocando uma lupa sobre os pretensos justiceiros. O direcionamento das perguntas de Moro na audiência com Lula, sabendo-se o que se sabe hoje, chega a ser constrangedor.

Na investigação paralela da imprensa, a partir das mensagens virtuais vazadas, outros elementos vão surgindo, como a colaboração com o departamento de Justiça dos Estados Unidos e o interesse do país vizinho em desvalorizar a maior empresa de petróleo do Brasil. “Amigo Secreto”, o nome do filme, repete o de um grupo de mensagens em que os procuradores da operação explicitavam a relação íntima com o ex-juiz Sergio Moro, o que gera um momento tragicômico, quando eles caem em uma notícia falsa de internet.

Quando Moro lança sua campanha – já fracassada – à Presidência, uma repórter comenta: “O partido da Lava Jato. Agora é oficial”. Mas há consequências outras, além do turbilhão social provocado pela prisão do ex-presidente Lula, então líder das pesquisas na disputa presidencial, e do clima de varredura que se estabeleceu no país. A mais direta delas, apontada pelo documentário, é a eleição de Jair Bolsonaro, deputado irrelevante, quase folclórico, que desponta como líder de uma extrema-direita raivosa, ressentida.

A outra consequência, não menos grave, está no enfraquecimento do poder Judiciário, que teria começado justamente com a Lava Jato e a disposição dos envolvidos na operação em contestar quaisquer decisões que lhes fossem desfavoráveis, imbuindo-se de um poder supremo e soberano sobre quem quer que fosse, incluindo o conjunto da sociedade brasileira. Ao se crer intocável, Deltan Dallagnol até cria uma fundação para si, a fim de arrecadar dinheiro.

E, aí, surgem novas perguntas: qual foi o papel da imprensa nesse imbróglio? Como ela se permitiu ser usada pelos interesses de membros de uma corporação? O quanto a captura de parte expressiva dos meios jornalísticos degenera o conceito amplo de democracia? Quais serão as consequências daqui pra frente? A democracia brasileira conseguirá se recuperar? Quem viver, verá, ecoa um advogado antes de a tela ser tomada por uma imagem perturbadora com o enterro de vários mortos pela Covid-19.

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